O martírio de Policarpo

No ano 155 d.C. os cristãos não eram procurados, mas, se alguém os delatava e eles se negavam então a servir aos deuses, era necessário castiga-los. Policarpo era bispo de Esmirna quando um grupo de cristãos foi acusado e condenado pelos tribunais. Segundo o relato de alguém que diz ter sido testemunha dos acontecimentos, aplicaram-lhes os mais dolorosos castigos e nenhum deles se queixou de sua sorte, pois “descansando na graça de Cristo tinham em pouca conta as dores do mundo”.

Quando levaram Policarpo diante do procônsul, este tratou de persuadi-lo, dizendo que pensasse em sua avançada idade e que adorasse o imperador. Ele não o fez [...] De novo o juiz insistiu, dizendo-lhe que, se jurasse pelo imperador e maldissesse a Cristo, ficaria livre. Mas Policarpo respondeu: “Eu O sirvo há oitenta e seis anos, e Ele não me fez nenhum mal. Como eu blasfemaria ao meu Rei, que me salvou?” [...]

Diante da firmeza do ancião, o juiz ordenou que Policarpo fosse queimado vivo e toda a população saiu para apanhar ramos para preparar a fogueira. Atado já em meio à fogueira e quando estavam a ponto de acender o fogo, Policarpo elevou os olhos ao céu e orou em voz alta: “Senhor Deus Soberano [...] dou-Te graças, porque me consideraste digno deste momento, para que, junto a Teus mártires, eu possa ser parte no cálice de Cristo. [...] Por isso Te bendigo e Te glorifico. [...] Amém”. (Extraído da História Ilustrada do Cristianismo – Justo Gonzales – Vol. 1 – Vida Nova).

Lendo sobre os dois primeiros séculos da Igreja Cristã, há relatos de outros cristãos que não aceitaram o martírio, que se acovardaram e negaram a fé. Muitos, diante dos tribunais e das feras, retrocediam na fé, tal o horror a que eram submetidos. Porém, sempre que leio a respeito dos que resistiram a tais rigores, fico pensativo. Sempre me pergunto por qual motivo vivemos num tempo e lugar onde não chegamos nem perto de tais rigores. Estamos sendo poupados? Nossa fé está sendo menos provada? Se for este o caso, por quê? Também fico pensativo por outra questão. Se não vivemos tantos rigores, por que nos ressentimos tanto de dificuldades notadamente menores? Por que, por tão pouco, deixamos de ser crentes comprometidos, fieis? Será que estamos sabendo enxergar nossos tempos? Será que estamos aproveitando todas as oportunidades? Ou sutilmente somos levados a negar a fé sem que esta verdade pareça tão evidente?

Homens como Policarpo enfrentaram a morte para dar exemplo do valor de uma fé. Pedro diz que a fé deve ter para nós um valor acima do ouro depurado por fogo (1Pe 1.7). Mas será que a fé  que  dizemos  ter  tem  de  fato  tanto  valor  para  nós? Pois  muitos  não  estão dispostos a qualquer sacrifício pela fé, pela Igreja, por Cristo. Negam-No friamente e diariamente quando se negam a viver a vida cristã autêntica. Na verdade, desculpem-me a franqueza, estamos vivendo tempos de crentes muito mimados, que na primeira contrariedade da vida negam o que dizem ser.

Tenho pedido a Deus que prove a minha fé, pois quero dizer para Ele que de fato O amo e estou disposto a tudo por Ele. Nem quero fugir dos rigores que a fé exige, pois, pior do que os rigores da vida cristã é ser desqualificado como cristão e não poder estar dignamente diante do meu Salvador, a cada dia.

Aqueles homens não eram piores que nós, antes, foram muito superiores à maioria de todos nós juntos, pois exibiram uma fé tão verdadeira que mesmo o preço de suas vidas não podia compra-la. Era uma fé verdadeira e eles a ofereceram a Deus, como verdadeiros cristãos que eram.

Que Deus nos dê mais policarpos.

Pr. Hilário José