Nossos irmãos de Corinto – Parte 13 (Graça e Responsabilidade)

“...lancei o fundamento como prudente construtor;

e outro edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica” (1Co 3.10)

 

Depois de Paulo se desqualificar, afirmando não ser ele nem Apolo, ou quem quer que seja, os que fazem a obra de Deus prosperar, asseverando que a causa do crescimento da obra é Deus, no entanto, Paulo amplia seu ensino ao dizer que o fato da graça existir e ser a causa do sustento da obra, a mesma não exclui a responsabilidade daquele que é usado por Deus. Paulo diz que é “segundo a graça de Deus”, porém, agiu como prudente construtor e orientou a cada um atentar em como está desenvolvendo seu ministério (1Co 3.10); “cada um veja como edifica”.

Na seção que vai do verso 10 ao 17 da capítulo 3, Paulo enfatiza a necessidade de cada um ser zeloso com a obra de Deus. Ele fala que a obra de cada um será provada; “...e qual seja a obra de cada um o próprio fogo o provará” (v.13). Ainda no início do mesmo versículo, Paulo revela que a obra de cada um não somente será provada como também será manifesta.

O obra de Deus é realizada segundo a graça de Deus que nos é dada (v. 10), porém, cada um deve observar como vai edificar sobre o fundamento, que é Cristo (v.11). Reparem que é a graça de Deus a causa da Sua obra, mas Ele requer o nosso trabalho, que deve corresponder à graça, com prudência e temor, como ensina, por exemplo, aos Filipenses; “desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fl 2.12b,13).

Esse é um aspecto da obra de Deus tão importante, que Paulo o trata com muito cuidado, alertando que a obra de cada um está sendo provada e será demonstrada no Dia do julgamento do tribunal de Cristo. Quando leio Paulo nessa passagem, fico imaginando que cada ato ou omissão nossas estão sendo contabilizados e serão provados. Esse é outro aspecto dessa revelação, ou seja, que a obra que realizamos terá, ou não, recompensas, galardões (v.14). Entretanto, não esqueçamos que Paulo também revela que a obra reprovada nos causará dano (v.15). Que dano? Não sei. Sei apenas que não quero sofrer esse dano.

Outra compreensão da obra de Deus que Paulo esclarece é o fato de que Ele não nos avalia pelo que fazemos apenas, mas pelo que somos. Paulo vai finalizar a seção dizendo: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vos?” (v.16).

Se de fato Deus habita em nós, que obra Ele nos está inspirando? Se Ele está em nós, será que correspondemos à Sua presença em nossas ações em favor do Seu Reino? Será que é possível realizar a obra de Deus sem considerar a santidade que deve haver em cada crente?

Pr. Hilário José

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Nossos irmãos de Corinto – Parte 12 (Graça)

“Quem é Apolo? Quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor

concedeu a cada um” (1Co 3.5)

 

O que Paulo disse aos Coríntios em resposta ao que lhe chegou ao conhecimento, já que sua pessoa e a de Apolo eram usadas com referência a partidos que dividiam aquela Igreja, foi que nem ele e nem Apolo eram alguma coisa diante da obra de Deus (1Co 3.5-7). Ao contrário, o que eles fizeram havia sido uma concessão de Deus, um privilégio que tiveram ao servir à Igreja de Cristo, uma graça que lhes foi concedida.

Paulo tem bem nítido em sua mente que o fato de ser usado por Deus não lhe outorga nenhuma honra, antes, se algo ele fez, foi pela graça de Deus. “Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica” (1Co 3.10).

Pois bem, Paulo reduziu os obreiros a meros instrumentos, ou a nada, porque ele diz: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.6,7). Reparem que Paulo diz que nem o planta é alguma coisa, nem o que rega... Quem somos, então? Para mim: nada. Somos alguma coisa que Deus transformou em Seus instrumentos, que nem mesmo sozinhos há razão de ser em nós, pois, “ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho” (1Co 3.8).

É por isso que na obra de Deus o que deve ficar sempre em relevo é a graça de Deus, pois, apesar de não sermos os responsáveis por dar vida à obra (ou crescimento), Deus ainda assim nos promete galardão. Com esse conhecimento, irmãos, deveríamos nos dirigir a Deus e dizer algo parecido como: “Senhor, eu não sou nada, só Tu sabes o quanto sou miserável; mas eu sei que o Senhor ainda assim contrata gente como eu para ser Teu trabalhador. Permita-me ser o que planta ou o que rega, mas de antemão já antecipo que não sou nada; não tenho qualificação para tocar nas Tuas coisas; mas conto com a Tua misericórdia, para que me aceites assim”.

A Igreja de Corinto e muitos por aí não pensam assim. Acham que fazem um favor por pertencerem a uma Igreja, por serem membros, por ocuparem um cargo... Não, irmãos, Deus é quem nos faz um favor ao nos permitir trabalhar com Ele mesmo a despeito do nosso currículo de pecado e morte. E ainda assim nos contrata e nos dará galardão.

Quem somos nós na obra de Deus? Paulo diz: servos. Só. E ponto. Achar que somos mais que servos é entrar no estado de arrogância dos nossos irmãos de Corinto. 

Hilário José

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Nossos irmãos de Corinto – Parte 8 (Divisão na Igreja)

“O saber ensoberbece, mas o amor edifica” (1Co 8.1b)

 

Igreja é uma grande família, a família de Deus, como Paulo escreveu aos Efésios (Ef 2.19). A Igreja de Corinto estava desestruturada porque esqueceu o amor, que é o que edifica de fato tanto a família espiritual quanto a família terrena, a que constituímos aqui. É possível, então, observarmos similaridades entre a família chamada Igreja e a família de sangue, com princípios que precisam ser observados por ambas as famílias. Um desses princípios é o amor.

O que tem causado grande tristeza nas famílias e na Igreja é o julgamento desprovido de amor. Sempre estamos julgando uns aos outros; mas quando julgamos sem o critério do amor, apenas condenamos, a ponto de nos separarmos. Podemos ser sábios no julgar; mas se esta sabedoria não tem sua formação no amor de Deus, é apenas soberba. A sabedoria que Deus nos dá sempre edifica, ou seja, constrói e fortalece laços, nunca nos distancia. Há separações no seio da Igreja e das famílias por causa da soberba. Se o amor fosse preservado, não haveria separação.

Aos nossos irmãos de Corinto Paulo diz: “Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber. Mas se alguém ama a Deus, esse é conhecido por Ele” (1Co 8.2,3). Paulo escreve essas palavras num contexto em que reinava o desprezo pela fé e a consciência do outro. Era cada um vivendo a sua própria vida, sem perceber que seu comportamento poderia afetar a consciência do outro. Paulo usa a expressão: “E assim, por causa do teu saber, perece o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. E desse modo, pecando contra irmãos, golpeando-lhes a consciência fraca, é contra Cristo que pecais” (1Co 8.11,12).

Muitos crentes na Igreja de Corinto arrogavam-se senhores do saber, porém não utilizavam o saber para edificar o Corpo de Cristo, mas para exibir uma suposta espiritualidade, ainda que isso fizesse perecer o outro. Hoje também é assim. Muitos aprendem as coisas de Deus, mas não as usam para edificar o outro; antes, assumem uma postura independente e despreza o outro, não levando em consideração as limitações de cada um. Que saber é esse senão um instrumento da soberba? Esse era o quadro geral da Igreja de Corinto.

Eu desconfio de quem aprende muito as coisas de Deus e ao mesmo tempo não se torna mais humilde. Digo isso porque as coisas de Deus são assim. Cristo a si mesmo se humilhou. Por isso, desconfio de quem aprendeu tanto as coisas de Deus e usa o conhecimento adquirido apenas para julgar o outro ou criar divisões de classe na Igreja. Quanto mais aprendemos de Deus, mais deveríamos nos humilhar, pois o verdadeiro conhecimento de Deus nos leva ao conhecimento de que não somos nada se não for a graça de Deus. Foi o que Isaías constatou. Poucos tiveram a visão da glória de Deus como ele. Mas qual foi a reação do profeta ao perceber quem era Deus? Ele disse: “ai de mim! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Is 6.5).

A verdadeira Igreja olha para o Senhor Jesus e se une a Ele em plena unidade, para juntos, e nunca separados, permanecerem debaixo de Sua graça. Em Cristo somos um, nunca cada um.

Pr. Hilário José

 

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Nossos irmãos de Corinto – Parte 7 (Divisão na Igreja)

“Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos,

constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo” (1Co 12.12)

 

A verdadeira doutrina nunca separa, porque a maior doutrina é o amor, que tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (1Co 13.7). O amor é a causa de todo o bem que nos assiste em Cristo, portanto nenhuma outra doutrina bíblica jamais deveria nos separar. Será que estamos entendendo bem o amor de Deus? Somos um corpo. É o que Paulo tenta explicar nos capítulos 12 e 13 da mesma epístola.

Nossos irmãos de Corinto estavam desprovidos de amor. Paulo diz: “Não tendes limites em nós; mas estais limitados em vossos próprios afetos” (2Co 6.12). Somente o amor é capaz de promover a unidade da Igreja, e o exemplo máximo desse amor é o próprio Senhor da Igreja: Cristo. Ao orar ao Pai, Jesus diz a nosso respeito: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo creia que tu me enviastes e os amaste, com também amaste a mim (João 17.20-23).

Jesus estava projetando a Igreja, na qual Ele se inclui. Somente nesse breve trecho vemos toda a intenção da unidade, a mesma experimentada pela Trindade Santa. É um pequeno trecho que fala de toda a essência da Igreja: ser uma unidade que expressa a unidade existente em Deus; para que o mundo creia, ou seja, uma unidade que aponte para Cristo; e assim o mundo conheça o amor de Deus. Esse é o papel da Igreja. Mas que Igreja era aquela dos nossos irmãos de Corinto?

É claro que, ao me referir aos nossos irmãos de Corinto, quero na verdade provocar uma reflexão para nós mesmos, a Igreja de hoje. Que Igreja o mundo está vendo em nós? Que amor estamos expressando, se o pregamos, mas não o vivemos? De que vale tanta “teologia” que não evidencia amor, tolerância, longanimidade, ou seja, sentimentos que preservam a unidade?

Somente alguém bem desatento não percebe que um crescimento causado por divisão não pode ser um crescimento sadio. Uma Igreja que cresce à custa de rachas, facções, politicagem, roubo de legados, denuncismos e difamações não pode ser uma Igreja que tenha autoridade para ser chamada Igreja de Cristo. Que Igreja é essa, que reclama para si o poder de Cristo quando é incapaz de se manter unida? Infelizmente, essa tem sido a realidade de boa parte da Igreja que cresce.

Que crentes somos nós, se não conseguimos entrar em acordo com o irmão? Que crentes somos nós, incapazes de viver em paz? Que crentes somos nós, que não abrimos mão dos nossos direitos em favor da unidade do Corpo de Cristo? Que crentes somos nós, que não abrimos mão de uma suposta “glória” pessoal para aprender a viver com quer que Deus tenha colocado ao nosso lado? O cabeça da Igreja é Cristo, para quem todas as coisas devem convergir, e somente a unidade pode possibilitar essa convergência. Ou estamos em Cristo, ou não somos Igreja. Para onde estaremos indo, se nos faltar unidade?

Pr. Hilário José

 

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Nossos irmãos de Corinto – Parte 5 (Divisão na Igreja)

“Acaso, Cristo está dividido?” (1Co 1.13a)

É claro que nem todos pensam a mesma coisa. Há diversidade de pensamentos. Mas quando falamos da Igreja, há um propósito único, pelo qual todos devem lutar. O grande problema das facções dentro das igrejas é que as demandas ocorrem por interesses pessoais. Pensar em primeiro lugar no seu “próprio ventre” não é digno da condição de cristão. Quando escreveu aos Romanos, Paulo exortou àqueles irmãos a terem uma atenção específica: “Rogo-vos, irmãos, que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes; afastai-vos deles, porque esses tais não servem a Cristo, nosso Senhor, e sim a seu próprio ventre; e, com suaves palavras e lisonjas, enganam o coração dos incautos” (Rm 16.17,18).

É fato que até temos as nossas preferências, mas rejeitar um em favor do outro ou considerar mais um em detrimento do outro é uma atitude arrogante e nada humilde. É também uma forma de discriminação. É como se uma Igreja tivesse o direito de ter um grupo de intelectuais e outro dos menos instruídos, um grupo dos mais abastados e outro dos mais necessitados, o grupo de quem fala bem e o grupo dos que tropeçam nas palavras. Esse comportamento é responsável por hoje existirem igrejas elitizadas e igrejas da periferia, que não se misturam, não se relacionam, porque são de classes diferentes.

Louvo a Deus quando vejo dentro da cozinha da Igreja, naquele calor, cheirando a cebola e fumaça, mestres e doutores junto com os menos letrados, os mais abastados com os assalariados, os que têm a vida mais organizada com aqueles que ainda lutam por restauração, os que falam muito e os que nada falam, os que riem junto com os que ainda choram, os neófitos com os mais maduros na fé, os que vão trabalhar com alegria com aqueles que vão trabalhar por obediência, os que precisam de mais pastoreio com aqueles que ajudam a pastorear, e por aí vai... Penso que a cozinha missionária deve refletir um pouco a Igreja, até porque sei que de vez em quando ocorrem algumas lutas lá dentro, mas os irmãos insistem em prosseguir por um bem maior: a obra missionária.

Quando projetamos esse problema para fora da igreja local, há muito mais o que nos entristece. Paulo indaga aos nossos irmãos de Corinto se Cristo está divido (1Co 1.13a). É claro que Cristo não está dividido, mas o que temos visto na forma como atuamos como Igreja faz parecer que Cristo está dividido. Estamos divididos em denominações. Às vezes parece que defender a identidade denominacional é mais importante do que defender a própria fé. É triste também ver uma distância muito grande entre os pastores e as ovelhas, os que lideram dos liderados, dos que sabem um pouco dos que nada sabem. A Igreja está dividida não só por denominações, mas também por movimentos disso ou daquilo, quem chegou primeiro e quem chegou por último, denominações históricas e aquelas que surgiram recentemente. É até difícil estudar a história da Igreja sem se utilizar desses sistemas de classificação que servem para constatarmos que sempre buscamos mais o caminho da separação do que o da unidade. Estamos divididos por questões doutrinarias, como se a doutrina fosse diversa. A maior doutrina é o amor. Mas esse é um assunto para a próxima pastoral

Hilário José

 

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