Sararei a sua terra

Há algum tempo temos observado que o nosso País passa por momentos de desconforto político, econômico e social. Esse cenário produz uma certa instabilidade, pois temos a tendência de confiar no homem e em sistemas humanos, senda que, quando eles falham, reagimos com desconfiança e insegurança. Nessa dinâmica dos sentimentos, somos a favor de uns e contra outros, e não é incomum nos decepcionarmos com um ou com outro, a ponto de desacreditarmos de tudo. Muitos vivem sem esperança, ou, quando resta alguma esperança, voltam a depositar a confiança no homem ou em uma nova solução humana.

Porém, o pecado está no homem. Onde há homem, há pecado. Onde os homens se multiplicam, multiplica-se também o mal. O livro de Gênesis fala sobre esta verdade. Os homens se multiplicavam e o mal também, na mesma proporção: "Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhe nasceram filhas... Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração..." (Gn 6.1,5).

É simples assim. O homem é desse jeito. Às vezes nos esquecemos deste detalhe e voltamos a dizer "paz e segurança", senda que Paulo alertou aos tessalonicenses: "Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição..." (1Ts 5.3).

O que fazer nestas horas de desânimo em relação à humanidade, seus sistemas de governo e a corrupção humana? Só há uma coisa: é confiar em Deus mais que nos homens (Jr 17.5). Nestas horas, lembro da perturbação de Nabucodonosor, no sonho que teve e nas palavras que proferiu a seu próprio respeito a Daniel: "Esta sentença é por decreto dos vigilantes, e esta ordem, por mandato dos santos; a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer e até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles" (grifo meu) (Dn 4.17). Daniel interpretou que a boca daquele rei proferiu a sua própria queda.

O Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer. Eu quero descansar nesta palavra. Esta é a Palavra de Deus. Parar e pensar no homem, e em como se comportará, sempre me trará uma sensação de insegurança. Porém, sei que Deus sempre levantou reinos e os abateu para cumprir seus propósitos. Reinos constituídos por homens dão no que dão. O Reino que permanecerá para sempre é o de Deus. Viramos nele e na esperança que somente nele há.

Mas o que fazer, então? Ficar assistindo o caos humano? Não, claro que não. A Igreja tem um papel fundamental: orar. Foi o próprio Deus que nos deu esse poder ao dizer: ":..se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra" (2Cr 7.14). Que Ele sare a nossa terra chamada Brasil.

Pr. Hilário José



Deus não compra adoração 

Nós conhecemos a história de Jó, contada no livro que recebe seu nome. Mas o Livro de Jó, a meu ver, não tem como prioridade contar a história de Jó somente, que é o pano de fundo, mas nos ensinar que Deus não compra adoração, como o diabo insinuou, ao sugerir que Jó somente era íntegro, justo, temente a Deus, e que se desviava do mal, porque Deus o havia cercado de coisas boas. E de fato Jó era um homem rico e tinha uma família admirável (Jó 1.1-5). Deus apontou para uma verdade e o diabo fez o seu papel, suscitou a dúvida: “Será que Jó é tudo isto mesmo, ou só é um bom crente porque está cercado de bênçãos?” (paráfrase minha). É aí que o drama maior começa, não com a história de Jó, embora o envolva, mas com esse diálogo entre Deus e o diabo. Deus aponta para Jó como um exemplo de crente e o diabo põe em dúvida se crentes podem continuar crentes se Deus permitir que percam tudo.

Conhecemos a história. Deus testemunhou a respeito de Jó e Jó testemunhou com a vida dizendo quem Deus era para ele, independente das circunstâncias. A Bíblia diz que, mesmo a despeito de todo o sofrimento, Jó adorou a Deus, não pecou nem atribuiu a Deus falta alguma (Jó 1.20-22).

Tudo isto me leva a pensar que Deus observa nossas vidas, nossa adoração, mas que o diabo também o faz. O mundo espiritual é um mistério até que Deus nos revele. Nesse caso, Deus nos revela que Ele nos vê, considera nossa vida, pode até nos usar como boas testemunhas de servos de Deus, mas revela ainda que o diabo também está de olho em nossas vidas, em nossa adoração, em nossas motivações para servir a Deus. O diálogo entre Deus e o diabo suscitou uma prova muito grande na vida de Jó. E vejam, Deus autenticou tanto o valor da vida de Jó, que permitiu a prova, nas mãos do próprio diabo, para que retirasse de Jó seus filhos, seus bens e sua saúde. Tudo isto é um grande mistério, mas a prova não. De fato, Jó passou por toda aquela prova e, mesmo assim, não deixou de adorar.

Deus não compra adoradores, como sugeriu o diabo. Mas quem é que dará razão a esta verdade? Somos nós. Não que Deus dependa de nós para ser quem Ele é na beleza da Sua santidade. É claro que Deus não compra adoração, mas às vezes parece que queremos vender a adoração a Ele devida. Deus não compra adoração, porém, quando adoramos somente se formos favorecidos, penso que estamos assumindo uma postura daqueles que impõem um preço para adorar, como sugeriu o diabo.

A adoração é em espírito e em verdade (Jo 4.24), como Jesus ensinou àquela mulher samaritana. Envolve a vida. Tem a ver mais com fidelidade do que com quantidade, ou lugar, ou forma, e independe das circunstâncias. A verdadeira adoração tem sua causa em Deus. Ele é o motivo da adoração, não as situações favoráveis.

Jó, sem saber de tudo, ofereceu uma bela resposta para Deus e para o diabo também: uma adoração ultra-circunstancial, sem motivações em valores temporais, que teve um preço alto em filhos, bens e saúde. Tudo em Jó esteve à disposição de Deus, não do diabo. Jó foi adorador antes, durante e depois da prova. Deus sabia que podia requerer o que fosse na vida de Jó, e que ainda assim a adoração não seria comprometida, pois a motivação para Jó ser justo, íntegro, temente a Deus e se desviar do mal estava em Deus e na fidelidade do Seu servo.

Deus não compra adoração. Não tente vendê-la, não imponha preço para adorar a Deus. Quem impõe preço na adoração devida a Deus, na verdade, compra uma ideia do diabo.

Pr. Hilário José

"Vinde, tomai e aprendei de mim"

(Mt 11.28-30)

 

Foi assim que Jesus orientou aos que estavam cansados e sobrecarregados. Ir até Ele: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei". Nós vamos a Jesus com mais vontade justamente quando as cargas que nos pesam os ombros se avolumam. Nesses momentos, ir a Jesus é a solução. Mas, como ir a Jesus? Quando lemos o texto pensamos imediatamente em ir a Jesus para expor os nossos problemas, nossas lágrimas, apresentando nossas dores para Ele dar um jeito. Porém não é bem assim. Embora Jesus diga que vai nos aliviar, há mais do que isto em Suas palavras.

"Tomai sobre vós o meu jugo". Isto é se identificar. O relacionamento com Jesus é pessoal, não apenas funcional ou instrumental. Precisamos nos identificar com Ele, como Ele é. Tem ocorrido que muitos querem ir a Jesus pelo que Ele faz e não pelo que Ele é e já provou que é para nossas vidas. Vejam que o objetivo de Jesus é acharmos descanso para a alma sobrecarregada, mas esse descanso passa por saber quem Ele é e buscar ter a Sua semelhança.

Paulo disse aos Romanos que fomos predestinados para sermos "conforme a imagem de seu Filho, afim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8.29). Jugo era aquela peça de madeira para ligar os bois à carroça, com o objetivo de mantê-los unidos no mesmo propósito; ao final do dia de trabalho o jugo era retirado, para alívio dos animais. Nós também temos jugo na vida e Jesus está propondo um modo de vida a partir dEle e com Ele, compartilhando o mesmo jugo, propósito, sentido de vida, com a garantia de que é mais leve viver ao Seu lado. Ele diz: "Meu jugo é suave, e meu fardo é leve".

"Aprendei de mim". Nem sempre queremos aprender com Jesus. Queremos, sim, que Ele faça algo por nós. Porém, Deus está mais interessado em nos formar espiritualmente. Dar coisas é fácil, mas nos transformar à imagem do Seu Filho não é, porque o homem naturalmente se opõe a tal mudança. Mas Jesus nos chama a aprender com Ele. Aprender o quê? Mansidão e humildade a partir do coração. Creio que sofremos muito mais que o devido por falta de mansidão e humildade para lidar com as cargas da vida. Dificilmente nos sujeitamos ao que a vida nos impõe. Imediatamente, achamos que está tudo errado e que é necessária uma correção.

Nos agitamos, corremos para lá e para cá, passamos a fazer planos e a decidir tudo, sem ao menos ir a Jesus e colocar tudo a Seus pés. Ser manso é deixar-se amansar. Não é necessariamente um dom. Antes, manso é aquele que se deixou moldar pelas mãos do Criador. O pecado humano tornou o homem agressivo e distante de Deus e é preciso retornar. Percebemos que Davi aprendeu isso quando escreveu o Salmo 131: ":..fiz calar e sossegar a minha alma; como criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo" (Salmo 131.2).

(Continuação da pastoral...)

Para tanto, é preciso humildade. No sermão do monte, Jesus disse: "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra" (Mateus 5.5); mas também disse: "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus" (Mateus 5.3). Humildade deve ser o caráter da alma para alcançar o Reino que Cristo nos propõe. Ele nos ensinou a orar: "Venha a nós o Teu Reino" (Mateus 6.10a). Jesus mesmo "não julgou como usurpação o ser igual a Deus, antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo forma de serro" (Filipenses 2.5,6). Jesus disse que devemos aprender com Ele a mansidão e a humildade para acharmos descanso para a alma. Vejam que não é simplesmente ir a Jesus para nos sentirmos aliviados, É necessário aprender com o Seu caráter, É mais que receber algo, é aprender com Ele e assumir uma vida a partir dEle. Assim, disse Ele, achareis descanso para a vossa alma.

Se você está cansado e sobrecarregado, mude a vida a partir de Jesus, aprendendo com Ele, ao lado dEle. O descanso para a alma é inevitável. Experimente!

 

Pr. Hilário José

Não creia na morte

(Pr. Cleber Alho, em 8 de janeiro de 2016)

 

Não creia na face da morte quando diante dela estiver. É somente uma máscara. Não creia na máscara da morte quando ela estiver sobre mim. É apenas uma máscara. Não tome por verdadeiros os seus sinais. Não aceite a mensagem da rigidez, dos olhos cerrados e da inércia pétrea. São apenas invólucros que escondem e ofuscam a verdade por detrás de tudo.

Não estarão fechados os olhos, como pretende a máscara.

Estarão abertos e admirados ante o fulgor da glória que resplandece. E estarão cintilando ao refletir o esplendor divino que desfila ante eles, graciosamente.

Não tente falar aos ouvidos da máscara porque eles estarão encobrindo os ouvidos que ouvem o som da Voz como de muitas águas, que proclama altissonante meu novo nome e me diz: "Vem, bendita do Meu Pai. Possui por herança o Reino que te está preparado desde a fundação do mundo!"

Não estarão inertes as mãos que a máscara da morte afirma não mais poderem acarinhar. Antes escondem aquelas que se levantam jubilosas para aplaudir o Rei da Glória que ante mim passa em toda Sua majestade. Elas também estarão saudando os amados desde muito já não vistos.

Os lábios cerrados da máscara encobrem a verdade daqueles que se abrem, estupefatos e adoram: "Senhor meu e Deus meu!"

Os braços não são esses rígidos e inertes, mas aqueles que abraçam os joelhos do seu Cristo e tocam Seus pés com gratidão indizível.

Não há um corpo que parece dormir, mas um novo, íntegro, belo, sadio, que se curva para adorar e que salta a celebrar.

O coração que está em silêncio sob a máscara, longe disso, foi substituído por aquele que salta do peito para o peito de Jesus, a Quem pertence.

Não creia no silêncio irrespondível que a máscara impõe. Ele apenas encobre os sons que você não pode ouvir, mas que dizem coisas inefáveis, impensáveis, inimagináveis que ao homem não é lícito falar, pois nos faltam tais palavras.

Não creia na máscara da morte em mim. Eu estarei vivendo de fato, como nunca antes, e para sempre. E quando a máscara for coberta pelo obelisco com epitáfio, não permita a falsa inscrição: "Aqui jaz", mas mande assinalar: "Eis que vivemos!" (11 Coríntios 6.9).

Não se despeça da máscara. Dê um até breve a quem ela lembra, pensando no Grande Encontro que teremos todos no Céu de nosso Deus e Pai, porque a entrada para esse espetáculo eterno já foi paga há mais de dois mil anos, ao preço do sangue de Cristo, meu Senhor.

Shirley


Eu a chamava de “Filhote”, desde o início. Já planejávamos nossas bodas de prata, em setembro. Nestes últimos dias, ainda em casa, quando eu a ajudava nas tarefas domésticas, já que os sinais da enfermidade surgiam, Shirley me dizia continuamente: “Eu te amo”, “muito obrigada”, “me perdoa”. No dia em que internou, ainda em casa, disse-me: “Bem, acho que Deus está me levando”.
Conheci Shirley quando ainda éramos jovens e planejamos uma vida de serviço a Deus. Por Sua graça, Deus nos concedeu caminharmos juntos até 9 de fevereiro de 2016, quando de madrugada o médico me chamou para vê-la, ainda com vida, pela última vez. Fui, e a beijei, por mim e pelos meninos. Ela chegou no céu beijada por nós, pois pouco depois Deus a tomou e a livrou definitivamente dos sofrimentos desta vida.
Caminhada linda, que deixará saudades. Não sabia o motivo de no ano passado termos viajado tanto pelo Brasil e até no exterior. Fizemos cursos juntos, missões e passeios que almejávamos há anos. Tempo juntos, e a sós. Suprimento de Deus.
Já nos planejávamos para este ano. Sempre juntos, como ela repetidamente reclamou desde os tempos de namoro. Porém, nestes últimos dias Deus nos reservou a dor. Glórias a Ele. Vivemos a dor, também, juntos. Ela sempre me quis ao lado, e eu sempre quis estar ao seu lado. Até que a soberania de Deus nos separou. Como não sou profeta de ocasião, digo: não sei o porquê de Deus nos separar agora. Mas confiamos nEle, sempre. Deus é bom, sempre.
Ainda no leito, certo dia, já bem fraquinha, disse-lhe: “Não nos deixe”. Ela repreendeu a minha fraqueza com carinho. Já sofria muito.
Mesmo na dor, no leito da enfermidade, quem a testemunhou, viu que seus braços sempre se levantavam, quando a voz já não tinha a mesma potência. Pedia-me que cantasse, que orasse, que lesse a Bíblia. E levantava as mãos. Sempre nos pedia para dizer à Igreja a não esmorecer, mas adorar, sempre.
Sinto-me devastado, fragilizado. Natural. Não podia ser diferente. Em todos os lugares da casa a vejo. É bem difícil. Peço que orem por mim e pelos meninos, porque somente o consolo de Deus tem poder para nos acolher neste sofrimento.
Meus filhos foram formados nas entranhas de Shirley. Lucas e Davi são o que nós sempre esperamos. E Shirley sempre dizia: “Nossos filhos são lindos, homens de Deus”.
Lucas era seu confidente. Conversavam bastante, dizia. Davi realizou um sonho da mãe: tocar flauta na Igreja. Eles sempre se despediam de nós antes de dormir pedindo a bênção e dizendo: “Amo o senhor, amo a senhora”.
Filhos, ainda somos uma família. Não estamos destruídos. Deus fará algo para nos socorrer. Honrem a mãe que tiveram buscando ser o que ela sempre almejou: homens de Deus, o que vocês já são.
Ficamos agora com a lembrança da esposa dedicada, carinhosa e defensora da família. Fica a lembrança da mãe irrepreensível, que amou os filhos até o fim.
A Deus toda a glória pela vida de sua Diaconisa Shirley Cordeiro Nascimento da Graça, minha esposa desde 14 de setembro de 1991, mãe de Lucas e Davi, serva fiel do Senhor Jesus Cristo e de Sua Igreja.
Em Provérbios 22.18, a Bíblia diz que “o que acha uma esposa acha o bem e alcançou a benevolência do Senhor”.
Eu achei.
Até aquele Dia, Filhote.

 

Pr. Hilário José